Um texto meu

terça-feira, 20 de maio de 2008


Anjo Noturno

A noite havia descido há poucas horas, quando um ser vagando iniciava mais uma busca. Um Anjo revestido de homem, mas sua porção humana naquele momento era o que o definia melhor. Com medos e anseios não revelados aos simples olhares mortais sua alma indecifrável só podia ser vista por aquela que ele buscava há vários séculos, aquela que seu desejo controlaria.

Na ânsia de entregar-se por inteiro a essa mortal, ele vagou noite após noite até que seu coração vibrou num súbito descompasso e o fez entender que estava próximo de sua jornada terminar.

O músculo involuntário que pulsava em seu peito o estava guiando tal qual a uma bússola, até que ele chegou à janela daquela que tanto buscava. Era um solstício de mais um verão, a lua brilhava pálida em um céu cravejado de estrelas, um cenário perfeito e mágico para aquele encontro.

Uma brisa quente tocava as cortinas transparentes por onde ele atravessou, e entrando naquele lugar onde seu amor estava deparou-se com a mais bela criatura que podia vislumbrar, repousava ela tranqüila em seu leito sem imaginar quem a observava. Seus cabelos longos e negros espalhados delicadamente por sobre o travesseiro, seu rosto iluminado pela luz da noite vinda da janela, um corpo perfeito quase desnudo e mal coberto, o fizeram aproximar-se de sue leito. Ele a olhou como se ela fosse o anjo.

Seu coração parou naquele momento para contemplá-la. E em um incontrolável gesto ele a tomou em seus braços, erguendo e a segurando de encontro ao seu peito, acordando assim a alma de tão doce criatura. Ela o olhou e sorriu como já o esperasse também há muito tempo.

O Anjo mapeando seu rosto com um olhar terno parou diante de seus lábios, e com um toque suave e delicado uniu sua boca a dela em um beijo onde ambos sentiram uma troca de essências vitais. Um encontro dessa magnitude o mundo jamais havia presenciado, tanto amor e paixão com muita dose de desejo e ternura de ambos os corpos, nunca ninguém experênciou tamanho amor.

Seus braços fortes a apertavam delicadamente contra seu peito de maneira que ela podia sentir o perfume que ele exalava um perfume que ela jamais havia sentido perfume de orvalho característico dos “Anjos Noturnos”, essa essência quase lhe tirava o sentido de tamanho prazer e desejo que lhe causavam. Seus corações batiam em um só compasso como se já não fossem seres individuais, mas uma só pessoa ou anjo.

E quando já não podiam mais fugir desse sentimento que lhes arrebatava entregaram-se a esse amor e desejo insuportável. Sem que precisassem dizer uma só palavra se olhavam e sabiam o que cada um esperava do outro. Nesse momento o desejo de pertencerem um ao outro foi exatamente do tamanho de sua paixão, e o amor explode naquele rescinto irradiando uma luz que pessoa alguma humana pensou existir e assim os dois entregam-se por completo. O Anjo desnuda-se de sua porção humana passando a ser essencialmente divino enquanto ela deixa mostrar toda a sua humanidade delicada e sensual.

Os dois corpos sem nenhum pudor tocam-se intimamente, seus olhos e sua boca encontram-se novamente, mas agora com uma fúria apaixonada onde ambos podem transmitir toda a sua dor por aquela espera.

Naquele momento o Anjo pode vivenciar toda doçura daquela criatura que ele tanto esperou, fazendo assim com que seus medos e angustias se dissipem por completo e ele sinta-se poderoso, quase um Deus que pode mudar toda a vida desta que tão frágil se encontra enlaçada em seu corpo. Vida e morte estão à mercê do Anjo neste momento, mas ele precisa que ela viva sua morte significaria a dele também, pois o amor que lhe dedicava era maior que sua própria divindade.

E em uma troca de essências os dois explodem em prazer, ela recebe uma porção de sua divindade dentro de si a guardando para todo sempre.

Esse momento mágico parecia nunca terminar de tão grande magia que lhes envolvia, quando ele num súbito momento de lucidez olha para a madrugada que entra pela janela daquele lugar e sabe que esse momento chegou ao fim. A separação lhe parece algo terrível mais inevitável, quereria ele que a noite nunca dissipa-se e pudesse conter a chegada do sol, mas isso não lhe era possível.

E da mesma maneira que ele a despertou a teria que adormecer, seu coração povoado de dúvidas pergunta-se se ela lembraria daquele momento. Ele perguntava a si mesmo porque ela também não é anjo para ficarem juntos pra sempre, mas não acha resposta e a adormece novamente com tamanha dor que uma pessoa comum não conseguiria aguentar.

Antes de sair e a deixar ele a beija, mas agora os lábios dela não respondem aos dele, a olha pálida pela luz da lua que entra pela janela e uma lágrima banha seu rosto. Levantando se afasta do leito dela indo em direção a janela quando ouve um sussurro suave lhe dizendo que nunca o esqueceria, que seu coração estaria com ele onde quer que ele estivesse. O Anjo sorri e sai caminhando e desaparece em meio à multidão só sendo visto novamente nos solstício de verão em frente à janela dela.

Autor: Rosi Reis

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